Visitar a Bienal de São Paulo é como navegar por um oceano de possibilidades. Cada uma das 1.100 obras espalhadas pelos mais de vinte e cinco mil metros quadrados do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, se desdobram em dezenas, centenas, milhares, milhões.

A maneira como uma obra de arte atinge cada um, talvez seja o próprio mistério da produção artística.

Foto, escultura, desenho, pintura, vídeo, pedra, papel e tesoura. Quando se materializa fora da inspiração do artista, vira flecha. E acerta o outro de um jeito que só quem recebe, sabe. É impossível ver e sentir tudo isso em uma visita só.

34ª Bienal de São Paulo

Portanto, há que se elaborar um plano, uma estratégia. Andar com os olhos e antenas atentas pelos três andares do belíssimo prédio, que vazio já me arrebata.

Deixe que as vozes dos 91 artistas de todos os continentes do planeta cheguem até você e se desdobrem. Afinal de contas, ‘faz escuro, mas eu canto’.

Neste post, vou te mostrar 13 destaques da 34ª Bienal de São Paulo que fizeram meus olhos brilhar. Quem sabe você não se anima e escreve também a sua lista?!


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34ª Bienal de São Paulo: ‘Faz escuro mas eu canto’

O título da 34ª Bienal de São Paulo é Faz escuro mas eu canto’, um verso do poeta amazonense Thiago de Mello, que fala sobre os problemas que enfrentamos e na necessidade de celebrar e usar a arte como um meio de resistência à barbárie política, social, ambiental e econômica que temos vivido nos últimos tempos.

Apesar do escuro, a gente canta. Ou pelo menos tenta cantar.


É grátis!

A 34ª Bienal de São Paulo acontece entre 4 de setembro e 5 de dezembro e tem entrada gratuita. É obrigatório o uso de máscaras e a  apresentação do comprovante de vacinação contra a Covid-19 com pelo menos uma dose.

O ‘passaporte da vacina’ pode ser apresentado no aplicativo e-saúde ou em formato físico.


13 destaques na 34ª Bienal de São Paulo

Além das obras expostas na 34ª Bienal de SP, existem 14 enunciados que funcionam como elementos de introdução à curadoria e narrativas presentes na exposição.

Esses elementos carregam fortes conteúdos históricos e poéticos e potencializam algumas questões retratadas em obras ao redor, como é o caso do Sino de Ouro Preto, Os Reratos de Frederick Douglass e os Objetos do Museu Nacional. Vale a pena ficar de olho neles.

A seguir, você verá uma lista com 13 obras e enunciados da 34ª Bienal de SP que chamaram a minha atenção e me moveram de alguma forma.

1. ‘Para acabar com o juízo de deus’, Grace Passô

Antes de entrar no Pavilhão da Bienal, podemos ver e ouvir a obra da belohorizontina Grace Passô, que soa por alto-falantes presos a um poste torto.

A obra é uma releitura da clássica peça radiofônica ‘Para acabar com o juízo de deus’, do escritor, poeta, dramaturgo, ator e diretor teatral francês Antonin Artaud (1896-1948) e é uma colaboração com o músico brasileiro Barulhista, com participações de Maurício Badé e Thelmo Cristovam.

Obra na Bienal de SP
‘Para acabar com o juízo de deus’, de Grace Passô

2.  PIM PAM – Playground, Roger Bernat

A instalação do artista espanhol Roger Bernat é uma excelente introdução à 34ª Bienal de SP. Os visitantes podem participar de um jogo de vai-e-vem através de instruções passadas por fones de ouvidos (distribuídos em carrinhos ao longo da Bienal).

Obra de Roger Bernat na Bienal de São Paulo
Visitantes da 34ª Bienal de São Paulo ouvindo a instalação de Roger Bernaté

3. Monumento para as sociedades nativas da América do Sul, Lothar Baumgarten

A instalação do artista alemão Lothar Baumgarten traz nomes de povos indígenas da América do Sul que foram e continuam ameaçados pela violência colonial.

Obra na Bienal de SP
Monumento para as sociedades nativas da América do Sul, Lothar Baumgarten

Aliás, é importante destacar que esta é a edição com maior número de artistas indígenas da História da Bienal. Nove artistas de povos indígenas brasileiros e de outros países participam dessa 34ª edição da Bienal de São Paulo.

São eles: Daiara, Jaider Esbell, Sueli Maxakali, Gustavo Caboco, Uyra, Abel Rodriguez, Jaune Quick-to-see Smith, Pia Arke e Sebastián Calfuqueo Aliste.


4. O Sino de Ouro Preto

O sino da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, em Ouro Preto (MG), foi o único da colônia a soar um toque de lamento pela execução de Tiradentes.

A desobediência à uma ordem oficial da coroa, tornou esse sino um símbolo da luta pela soberania do Brasil. Tanto, que foi levado a Brasília para a inauguração da nova capital.

Sino de Ouro Preto na Bienal de SP
O sino de Ouro Preto

Assim como o toque do sino, exposto em forma de vídeo, outras obras na 34ª Bienal de São Paulo já foram expostas em momentos e formatos diferentes.

Voltar a mostrá-las, é dizer que nada permanece igual, já que a arte e o mundo estão em constante transformação. Tanto de quem cria quanto de quem vê.


5. Complexo Atlântico – Cordas, Arjan Martins

No segundo pavimento, em frente às dezenas de retratos do abolicionista norte-americano Frederick Douglass (1818-1895), você verá uma gigantesca âncora de mais de uma tonelada, que faz parte da obra Complexo Atlântico – Cordas, do artista carioca Arjan Martins.

A âncora amarra um imenso triângulo feito com cordas náuticas, que ocupa o espaço central do Pavilhão. A figura representa o ‘triângulo do Atlântico’, a principal rota de comércio escravagista entre Europa, América e África.

Obra da Bienal de SP
Complexo Atlântico – Cordas, de Arjan Martins

6. Exposição do acervo do Grupo Cultural Yuyachkani

Outro destaque da 34ª edição Bienal de SP é a exposição do acervo do Grupo Cultural Yuyachkani, grupo peruano pioneiro no campo da criação coletiva, experimentação e performance política.

A apresentação de seu acervo é uma forma inédita de expor documentos, imagens, vídeos, figurinos, fotografias e todo tipo de inspiração usados na composição das obras desse importante grupo de ativistas, que fala sobre a luta pela terra, as migrações, a marginalização, a violência política contra as mulheres, a justiça, o dilema do retorno dos deslocados, os desaparecidos.

Muito interessante!

Obra na Bienal de SP
Exposição do acervo do Grupo Cultural Yuyachkani

7. ‘Nos Erguemos ao Levantar Outras Pessoas’, Marinella Senatore + Esprit Concrete

A instalação que ocupa parte do segundo andar do Pavilhão da Bienal foi criada pela artista italiana Marinella Senatore e pelo grupo de parkour Espirit Concrete.

A grande roda luminosa presa ao teto parece ter saído de um parque de diversão e carrega a mensagem: ‘nos erguemos ao levantar outras pessoas’. Sob ela, monitores transmitem imagens de oficinas de movimentos do corpo realizadas com moradores da Cidade Tiradentes, em São Paulo.

Obra na Bienal de SP
‘Nos Erguemos ao Levantar Outras Pessoas’, de Marinella Senatore e Esprit Concrete

8. 2021, Jota Mombaça + Musa Michelle Mattiuzzi

Jota Mombaça é artista potiguar que define-se como ‘bicha não binária, nascida e criada no nordeste do Brasil’.

A obra 2021 foi desenvolvida em parceria com Musa Michelle Mattiuzzi, performer, artista visual, diretora de cinema, escritora e pesquisadora do pensamento radical negro.

2021 tem dois momentos: a composição e escrita de fragmentos e elaborações de estudos sobre textos previamente escolhidos e a leitura pública e rasura dessas mensagens. É como se nos contassem o segredo e depois, através das rasuras, protegessem esse segredo.

Obra na Bienal de São Paulo
2021, de Jota Mombaça e Musa Michelle Mattiuzzi

9. Precipitação para uma paisagem árida, Gala Porras-Kim

A pesquisa dessa artista colombiana tem como inspiração os cenotes mexicanos, considerados pelos maias um portal para comunicação com os deuses.

Ela fala sobre processos legais de extração de objetos sagrados para culturas indígenas durante a história do colonialismo e o conflito entre o verdadeiro significado desses objetos e os ‘métodos empregados pelos museus para definir o valor físico e espiritual a estes artefatos’. Interessantíssimo!

Obra da Bienal de São Paulo
Precipitação para uma paisagem árida, de Gala Porras-Kim

10. Kahtiri Eõrõ – Espelho da Vida, Daiara Tukano

Daiara Hor é artista, professora, ativista dos direitos indígenas e comunicadora e pertence ao clã Uremiri Hãusiro Parameri do povo Yepá Mahsã, mais conhecido como Tukano, da região amazônica do Alto Rio Negro.

Vale a pena conferir a sala no terceiro andar que abriga suas pinturas e a bela escultura Kahtiri Eõrõ – Espelho da Vida.

Obra de Daiara Tukano na Bienal de São Paulo
Kahtiri Eõrõ – Espelho da Vida, de Daiara Tukano

As obras de Daiara dividem o espaço com obras da grande Lygia Pape, traçando um contraponto entre os trabalhos dessas duas grandes artistas.


11. Meteorito Santa Luzia

Para completar essa lista com os meus destaques dentro do Pavilhão da Bienal, não tem como não citar a presença do Meteorito Santa Luzia, que resistiu ao incêndio que destruiu o Museu Nacional em setembro de 2018.

Meteoro Santa Luzia na Bienal de SP
Meteorito Santa Luzia

Também achei interessante pensar que Santa Luzia é a protetora dos olhos, das ‘janelas da alma’. É a portadora de luz. Em uma Bienal cuja escuridão faz parte do título da exposição, nada mais importante do que fazer-se luz!


Obras da 34ª Bienal de São Paulo fora do Pavilhão

Agora que já passamos pelos destaques do interior do prédio da Bienal, não deixe de conferir também algumas obras expostas do lado de fora, em pleno Parque do Ibirapuera.

Recomendo uma visita a pelo menos duas delas:

12. ‘Entidades’, de Jaider Esbell

As duas serpentes que flutuam na Lagoa do Ibirapuera são obra do artista Jaider Esbell, do povo Makuxi.

Elas representam o ser fantástico Îkîîmî, que atravessa vários mundos sem começo nem fim e segundo o artista, estão em posição de ataque. Prontas para dar um bote em Pedro Álvares Cabral, que aparece representado em uma escultura na outra margem da lagoa.

Vale a pena visitá-las à noite, quando parecem brilhar na escuridão.

'Entidades', obra da Bienal de SP


13. Escultura de Marielle Franco da série ‘Corte Seco’, de Paulo Nazareth

Por fim e não menos importante, a escultura com 11 metros de altura da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, faz parte da série Corte Seco, do artista Paulo Nazareth.

Obra na Bienal de São Paulo
Marielle Franco retratada na série Outdoors, de Paulo Nazareth

Paulo ficou conhecido por ter ido à pé de Belo Horizonte a Nova York, calçando uma sandália de borracha e sem lavar os pés durante toda a viagem. Quando chegou ao destino estadunidense, sete meses, lavou os pés impregnados com a poeira da América Latina nas águas do rio Hudson.

Além de Marielle, outros personagens históricos da luta contra as opressões, como Aqualtune, Dinalva, João Cândido e Teresa de Benguela também foram retratados nessas imensas esculturas de madeira revestidas de chapas de alumínio, posicionadas em vários pontos do Parque do Ibirapuera.


Para quem se interessar, a visita temática ‘Ensaios afrodiaspóricos: Amando a negritude como resistência política’ acontecerá no dia 14/11.


Horários da Bienal

A 34ª edição da Bienal de São Paulo funciona de terça a domingo. Até o dia 5/12. Nas terças, quartas, sextas e domingos , de 10h às 19h. Quintas e sábados, de 10h às 21h.

A 34ª edição da Bienal de São Paulo acontece no Pavilhão da Bienal, dentro do parque Ibirapuera. Aconselho entrar pelo portão 3.


O estacionamento do Parque Ibirapuera ganhou nova gestão com sua recente privatização. Não existe mais Zona Azul dentro do parque. O novo valor (R$10) é cobrado como diária, sem limite de tempo para uso da vaga.

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Viajante, fotógrafa e bióloga. Largou tudo e ganhou tudo ao mudar de rumo em 2012 depois de defender um doutorado em biologia molecular na USP. Desde então vive, viaja e trabalha com foto e vídeo, sua verdadeira vocação. Ama viajar fora do esquema turistão e gosta mesmo é de paisagem humana!

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