Você não precisa passar muito tempo na Tchéquia para perceber que a cultura cervejeira, por ali, tem uma linguagem própria.
No cardápio aparecem 10°, 11° e 12°. A caneca de chope tem muito mais espuma do que talvez você esperasse. No supermercado, dezenas de marcas dividem a prateleira com palavras impronunciáveis estampadas nos rótulos.
E é justamente aí que a coisa fica interessante.
Todos esses detalhes não falam só sobre o o líquido que está dentro do copo. Eles contam histórias de cidades, paisagens, técnicas e hábitos que ajudam a entender um pouco melhor a própria Tchéquia.
E você não precisa virar especialista em malte, lúpulo ou fermentação para acompanhar essas histórias. Basta prestar atenção.
É assim que a cerveja começa a funcionar como uma espécie de fio condutor para viajar pela Tchéquia.
Vem comigo!
A Pilsner nasceu em Plzeň
Em 5 de outubro de 1842, o mestre cervejeiro bávaro Josef Groll produziu, em Plzeň, uma lager clara e dourada que mudaria a história da cerveja.
A combinação de fermentação a baixa temperatura, malte claro, água de baixa mineralização de Plzeň e lúpulo Saaz resultou numa cerveja límpida e dourada que se destacava num período em que muitas cervejas europeias ainda eram escuras ou turvas.
O próprio nome entrega a geografia dessa história. Pilsner significa, em essência, “de Pilsen”, o nome alemão de Plzeň.
Antes de virar o nome de uma família inteira de cervejas produzida em diferentes partes do mundo, Pilsner dizia de onde aquela cerveja vinha.

Plzeň não inventou a cerveja, nem a fermentação lager. O que nasceu ali foi aquela lager clara de 1842 que acabaria emprestando o nome da cidade a um dos estilos mais reproduzidos do planeta.
É uma transformação curiosa: um nome geográfico virou uma palavra praticamente universal no vocabulário da cerveja.
A história também conversa com outro capítulo das lagers claras europeias. A Helles de Munique surgiu algumas décadas depois. Conto mais sobre ela no roteiro pelas cervejarias da Oktoberfest.
🍺 No copo
Se você quiser provar a referência histórica, a Pilsner Urquell é o ponto de partida.
A cervejaria continua produzindo em Plzeň e destaca entre seus ingredientes a cevada da Morávia, o lúpulo Saaz e a água de baixa mineralização da cidade.
O Saaz tem perfil aromático delicado, herbal e levemente condimentado. Ele não traz aquele caráter intensamente cítrico de muitos lúpulos usados em IPAs modernas; aqui, o malte continua tendo espaço no copo.
Depois dela, eu procuraria uma lager regional ou de uma pequena cervejaria. A referência histórica fica mais interessante quando vira ponto de comparação.
Em Žatec, o lúpulo virou paisagem e Patrimônio Mundial
O famoso lúpulo Saaz leva o nome alemão de Žatec, cidade no noroeste da Tchéquia ligada há séculos ao cultivo e ao comércio da planta.
Em 2023, Žatec e a Paisagem do Lúpulo Saaz entraram na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
O reconhecimento vai muito além dos campos.
A área protegida reúne plantações, vilarejos históricos, edifícios de secagem, embalagem, certificação e armazenamento, além de partes da própria cidade de Žatec ligadas ao processamento e ao comércio de lúpulo.
São mais de 700 anos de cultivo registrados na paisagem.
Nos campos, postes e fios sustentam plantas que crescem verticalmente e transformam a aparência do território. Na cidade, antigos armazéns e estruturas industriais contam a continuação da mesma história.
Antes de chegar à cervejaria, o Saaz já deixou sua marca no lugar.
“České pivo” não quer dizer apenas “cerveja tcheca”
Aqui uma tradução literal pode esconder uma história inteira.
Em linguagem comum, České pivo significa “cerveja tcheca”. Mas o mesmo nome também identifica uma Indicação Geográfica Protegida (IGP) registrada pela União Europeia desde 2008.
Nesse segundo sentido, produzir uma cerveja dentro da República Tcheca não é suficiente.
A especificação da IGP estabelece área geográfica, matérias-primas e características de produção. Entre os elementos associados à denominação estão a mosturação por decocção, a fervura do mosto e a fermentação em duas etapas.
A distinção parece técnica até aparecer num rótulo. A partir daí, aquela expressão deixa de informar apenas o país e passa a dizer alguma coisa sobre origem e processo.
Antes de ser uma briga de marcas, Budweiser era uma palavra sobre lugar
Budweis é o nome alemão de České Budějovice, cidade da Boêmia do Sul com uma longa tradição cervejeira.
Em alemão, Budweiser significa algo como “de Budweis”. A geografia veio primeiro. A disputa internacional em torno do nome veio depois.
A atual cervejaria Budějovický Budvar foi fundada em 1895, quando České Budějovice fazia parte do Império Austro-Húngaro e também era conhecida pelo nome alemão Budweis.
A disputa jurídica tomou caminhos diferentes conforme o país. Reduzir tudo à ideia de que uma empresa “roubou” o nome da outra perde justamente a parte mais interessante: língua, território, comércio e sistemas de registro de marcas se cruzam nessa história.
Também é preciso separar duas linhas do tempo. A tradição cervejeira de České Budějovice é antiga. A atual Budvar nasceu no fim do século XIX.
🍺 No rótulo
Dependendo do mercado, a cerveja da empresa tcheca pode aparecer como Budweiser Budvar, Budvar ou Czechvar.
O último nome é usado no mercado norte-americano por causa dessa longa história de marcas.
Os números 10°, 11° e 12° não indicam o teor alcoólico
Essa talvez seja a informação que mais rapidamente muda a maneira de ler um cardápio tcheco: uma cerveja de 12° não tem 12% de álcool.
O número indica o extrato do mosto original, ou seja, a concentração de substâncias dissolvidas no mosto antes da fermentação, expressa em percentual de massa.
Ele fala sobre o mosto antes de virar cerveja pronta. Não é uma leitura direta do álcool que vai parar no seu copo.
A classificação aparece também no vocabulário local. Pela regulamentação tcheca, uma cerveja de baixa fermentação classificada como ležák fica na faixa de 11° a 12°. Já a categoria výčepní pivo fica entre 7° e 10°.
Na prática, uma 12° tende a ter mais corpo e frequentemente mais álcool que uma 10°. Ainda assim, não existe uma conversão exata entre os graus e o teor alcoólico final, porque receita e fermentação também entram na conta.
🍺 No copo
Quer saber quanto álcool existe naquela cerveja? Procure a porcentagem de álcool por volume, normalmente indicada como % vol.
O 10°, 11° ou 12° está contando outra história.
Na Tchéquia, uma caneca cheia de espuma pode ter sido servida exatamente como deveria
Para quem aprendeu a enxergar espuma demais como cerveja de menos, algumas canecas tchecas parecem quase uma afronta. Só que a lógica é outra.
Na cultura cervejeira do país, espuma densa, úmida e cremosa faz parte do serviço. E acredite em mim, ela faz toda a diferença. A espuma – sempre perfeita – interfere na textura e na sensação da carbonatação e permite que uma mesma cerveja chegue à mesa de maneiras muito diferentes.
Na Pilsner Urquell, três tiragens tradicionais ajudam a entender essa lógica:
- Hladinka: o serviço clássico, com a caneca cheia e uma camada generosa de espuma densa e úmida.
- Šnyt: uma porção menor de cerveja numa caneca grande, acompanhada por bastante espuma e espaço vazio no topo.
- Mlíko: significa “leite”, mas não leva leite. O nome vem da aparência branca e cremosa da caneca praticamente tomada pela espuma úmida, com uma pequena quantidade de cerveja líquida no fundo.
Você também pode encontrar o čochtan, servido praticamente sem espuma. A percepção do gás e a sensação no copo mudam bastante.
🍺 No copo
Comece pela hladinka. Depois, se o bar trabalhar com as outras tiragens, compare com um šnyt ou um mlíko da mesma cerveja.
Depois de provar duas tiragens lado a lado, fica bem mais difícil chamar aquela espuma de excesso.
Em algumas cervejarias, ainda dá para ver a fermentação acontecendo
Nem toda lager tcheca fermenta exclusivamente dentro de um tanque fechado de aço.
Em algumas cervejarias, a fermentação principal ainda acontece em recipientes abertos, dentro de salas refrigeradas conhecidas em tcheco como spilka.
Depois de receber as leveduras, o mosto segue para essas cubas. Na superfície, forma-se uma camada espessa de espuma.
A aparência e o comportamento dessa espuma ajudam o cervejeiro a acompanhar a atividade das leveduras e a evolução da cerveja ainda jovem.

Depois da fermentação principal, a cerveja segue para tanques fechados, onde matura lentamente em baixa temperatura.
A fermentação aberta não é uma exclusividade tcheca e também não resume toda a produção do país. O interessante é poder encontrar um processo tradicional desses ainda integrado à produção de cervejarias em funcionamento.
🍺 Para ver de perto
Na TVARG, em Velká Bystřice, perto de Olomouc, as cervejas de baixa fermentação passam pelas cubas abertas antes dos tanques de maturação a frio.
A produção pode ser conhecida durante uma visita guiada à cervejaria.
Řezané pivo mistura duas cervejas prontas no mesmo copo
Se você gosta de comparar estilos, procure no cardápio a expressão řezané pivo.
Ela identifica uma cerveja feita pela mistura de uma versão clara com uma escura, combinadas no envase ou no momento do serviço.
O resultado depende das duas cervejas escolhidas e da proporção usada. Em alguns copos, as cores aparecem em camadas; em outros, a mistura já chega uniforme.
A legislação tcheca reconhece a řezané pivo, mas não determina que a proporção precise ser meio a meio.
E aqui entra outra palavra útil do cardápio: polotmavé. Ela não é sinônimo de řezané.
Uma polotmavé é uma cerveja semiescura produzida com uma combinação de maltes de diferentes colorações. A řezané nasce da mistura de duas cervejas já prontas, uma clara e outra escura.
🍺 No copo
Se o bar oferecer as três opções, prove a clara e a escura separadamente antes da řezané. A terceira cerveja passa a funcionar quase como uma experiência de comparação.
O banho de cerveja não é uma banheira cheia de chope
O nome spa de cerveja (beer spa) dá margem a uma imagem bastante específica: uma banheira inteira cheia de cerveja.
Não é isso que acontece.
No Beer Spa Bernard, por exemplo, você não mergulha em centenas de litros de cerveja pronta.
O estabelecimento utiliza na banheira uma mistura desenvolvida com a cervejaria, preparada com água, lúpulo, levedura e outros componentes ligados à produção. E essa mistura não contém álcool nem gás carbônico e não utiliza cevada.
A cerveja para beber entra separadamente: há uma torneira ao lado da banheira para que você se sirva durante toda a sessão. Um sonho!
Essa é uma daquelas experiências que toda cervejeira e cervejeiro merecem ter. Pode acreditar!
🍺 Minha experiência
Eu fui à unidade do Beer Spa Bernard da Štěpánská 33, dentro do Majestic Plaza Hotel, em Prague 1.
Achei a experiência tranquila e bem privativa. O espaço funciona tanto para uma pessoa quanto para duas, e eu escolhi completar a sessão com uma massagem ao final.
Para mim, o mais interessante foi fazer algo ligado à cultura cervejeira sem simplesmente repetir mais uma parada num bar.
A Tchéquia continua no topo do consumo de cerveja. Mas essa história está mudando
A República Tcheca aparece há décadas no topo dos levantamentos internacionais de consumo de cerveja por habitante.
Em um estudo global da Kirin com dados de 2024, o país ficou em primeiro lugar pelo 32º ano consecutivo, com uma estimativa de 148,8 litros por pessoa. No mesmo levantamento, o Brasil aparece em 21º lugar.
Já a Associação Tcheca de Cervejarias e Maltarias calcula que o consumo doméstico caiu para 121 litros por habitante em 2025, o menor nível de sua série histórica.
Os números não devem ser comparados como se fossem uma única sequência estatística. São levantamentos diferentes, referentes a períodos distintos e construídos com bases próprias.
O que interessa aqui é a direção da mudança. O consumo doméstico de cerveja vem diminuindo, enquanto as versões sem álcool ganham espaço.
Em 2025, esse segmento cresceu 4% e já representava mais de 11% do consumo doméstico.
Ou seja, um país pode continuar profundamente ligado à cerveja e, ao mesmo tempo, mudar a maneira como bebe.
🍺 No copo
Para cerveja sem álcool, procure nealko ou nealkoholické.
Mas confira o teor no rótulo: pela regulamentação tcheca, uma cerveja classificada como não alcoólica pode conter até 0,5% de álcool em volume.
Cerveja não é sempre mais barata que água
Você provavelmente já ouviu a frase: na República Tcheca, cerveja custa menos que água.
Ela é perfeita para voltar de viagem contando.
Como regra, não funciona.
Você pode encontrar um cardápio em que determinada cerveja custe menos que uma água mineral. Em outro estabelecimento, acontece o contrário. Marca, volume, cidade e tipo de lugar mudam completamente a comparação.
A história por trás do mito, porém, é interessante.
Em 2015, uma proposta do governo tcheco previa que restaurantes e estabelecimentos semelhantes tivessem pelo menos uma bebida não alcoólica mais barata que a bebida alcoólica mais barata de mesmo volume.
A proposta avançou no governo, mas essa obrigação de preço não aparece na lei vigente que hoje estabelece as condições para venda e serviço de bebidas alcoólicas.
Então a orientação mais confiável é também a menos folclórica: olhe o cardápio.
Onde essas histórias viram lugares
Uma das coisas mais interessantes nessa história é perceber que ela não está só dentro do copo.
Em Plzeň, Pilsner deixa de ser apenas o nome de um estilo e volta a ser uma cerveja ligada a uma cidade.
Em Žatec, o lúpulo aparece nos campos, nos edifícios e numa paisagem agrícola que acabou reconhecida pela UNESCO.
České Budějovice ajuda a entender de onde veio Budweis, e por que o nome Budweiser é bem mais complicado do que parece na prateleira de um supermercado.
Em Praga, basta prestar atenção nos bares para encontrar outra parte dessa cultura: hladinka, šnyt, mlíko, cervejarias e experiências como os spas de cerveja.
E perto de Olomouc, em Velká Bystřice, a TVARG permite observar um processo como a fermentação aberta dentro de uma cervejaria em funcionamento.
Tá vendo, na Tchéquia, você pode montar uma viagem inteira em torno da cerveja. Ou pode, simplesmente usar essas histórias como pistas para descobrir mais sobre os lugares por onde passa.
O que pedir primeiro na República Tcheca?
Depois de tanta novidade, a parte prática pode continuar simples.
Eu começaria assim:
- Escolha uma lager clara de 10°, 11° ou 12°;
- Peça uma hladinka para conhecer a tiragem clássica;
- Prove a Pilsner Urquell como referência histórica, mas não pare nela: procure também uma cerveja regional ou de uma pequena cervejaria;
- Se encontrar uma řezané, experimente depois de provar separadamente as cervejas clara e escura usadas na mistura.
Importante
Intercale cerveja com água, coma durante as degustações e aproveite o transporte público para se locomover.
Se beber, não dirija.
Antes de brindar
Na próxima vez que aparecer um 12° no cardápio, uma caneca quase branca de espuma ou um nome que você ainda não sabe pronunciar, já sabe: provavelmente existe uma história ali.
E, na Tchéquia, seguir essas histórias costuma levar a lugares bem interessantes.
Na zdraví!
Alessandra visitou Praga e Olomouc a convite do destino Czequia para participar do Meeting Point da República Tchéquia, evento que reuniu veículos de comunicação de vários países da América Latina e Espanha











