Em Olomouc, o tempo do relógio desfila uma vez só, ao meio-dia. Na fachada da prefeitura, no coração dessa pequena cidade da Morávia, no leste da República Tcheca, figuras de trabalhadores, camponeses, músicos e outros personagens da vida cotidiana entram em movimento cercados por mosaicos de colheitas, ofícios e tradições da região de Haná.
É um relógio difícil de confundir com o famoso Orloj de Praga.
Na capital tcheca, quem dá as horas são os apóstolos. A Morte toca o sino, figuras alegóricas começam a se mexer e, logo abaixo, Sol, Lua e signos do zodíaco continuam sua volta por um mostrador astronômico cuja origem remonta a 1410.
De um lado, um relógio medieval. Do outro, o chamado “relógio comunista“. A simples comparação é tentadora, mas não é só isso.
Os dois relógios são muito mais misturados do que parecem. Atravessaram séculos de reformas, mudanças políticas, guerras e reconstruções. Perderam peças, ganharam outras, trocaram personagens e chegaram ao presente carregando marcas de épocas diferentes.
E é justamente aí que a comparação começa a ficar boa.
É seguindo esses dois relógios que vamos percorrer o passar do tempo na Tchéquia. Entre astronomia e religião, trabalho e folclore, guerra e política, eles ajudam a contar capítulos da história e da cultura tchecas. E mostram como dois objetos tão diferentes, em duas cidades diferentes, podem guardar muito mais em comum do que parece.
Em Praga, o tempo está no céu
O relógio de Praga nasceu também como um instrumento astronômico. Seu mostrador representa o céu visto a partir da cidade e acompanha os movimentos aparentes do Sol e da Lua.
O círculo do zodíaco mostra onde ambos os astros estão na eclíptica e a pequena esfera lunar muda de aparência para indicar as fases da Lua. O fundo ainda separa dia, noite, amanhecer e crepúsculo.
E então vêm as horas. E não uma só.
O Orloj permite ler quatro sistemas de tempo diferentes: o horário que usamos hoje, o antigo horário boêmio contado a partir do pôr do sol, as horas desiguais entre o nascer e o pôr do sol e o tempo sideral, ligado ao movimento aparente das estrelas.
O relógio, portanto, não responde apenas “que horas são?”. Ele tenta situar aquela hora dentro do dia, do ano e do céu.
E, pra completar, na hora cheia, o relógio acrescenta seu pequeno teatro: os doze apóstolos, a Morte, a Vaidade, a Avareza, a figura tradicionalmente chamada de Turco e o galo que encerra a apresentação.
Talvez seja por isso que prestar atenção apenas nos apóstolos pareça tão pouco depois que a gente entende o mostrador.
O espetáculo dura minutos. O relógio continua trabalhando.
Tudo o que o relógio astronômico de Praga mostra
- Horário da Europa Central, lido nos algarismos romanos do mostrador.
- Antigo horário boêmio, em que o dia começava no pôr do sol; os números góticos dourados aparecem no anel externo.
- Horas desiguais ou planetárias, dividindo o período entre nascer e pôr do sol em 12 partes.
- Tempo sideral, relacionado à rotação da Terra em relação às estrelas.
- Posição aparente do Sol no céu e no zodíaco.
- Nascer, passagem pelo horizonte e pôr do Sol, além das zonas de amanhecer e crepúsculo.
- Posição da Lua no zodíaco e seu movimento em relação ao Sol.
- Fase da Lua, indicada pela esfera lunar.
- Os 12 signos do zodíaco e sua posição na eclíptica.
- Data, além da posição do dia dentro da semana, do mês e do ano, no mostrador do calendário.
- Meses e trabalhos do ano, no calendário inspirado na obra de Josef Mánes.
Em Olomouc, o tempo desce para a terra
O relógio de Olomouc já olhou mais diretamente para o céu.
Uma grande reforma concluída em 1898 criou um planetário heliocêntrico com o Sol no centro, planetas, zodíaco e mostradores para horas, minutos e tempo sideral. Parte desse mecanismo atravessaria, inclusive os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.
Mas é outra coisa que domina a fachada hoje.
Nos mosaicos laterais, os doze meses aparecem por meio do trabalho manual de plantar, arar, semear, cortar capim, colher lúpulo, apanhar maçãs, preparar madeira. No alto, o folclore de Haná. Mais abaixo, um operário e um pesquisador representam o trabalho manual e intelectual.
Ao meio-dia, entram em movimento agricultores, trabalhadores e representantes da chamada “inteligência trabalhadora”, acompanhados por melodias populares de Haná.
O contraste com Praga fica muito mais interessante aqui.
Em Praga, o relógio coloca o tempo dentro do cosmos. Em Olomouc, a fachada coloca o tempo dentro do trabalho e do calendário da sociedade. Mas não foi sempre assim.
Por que o relógio de Olomouc é chamado de “comunista”?
O apelido descreve a aparência que vemos hoje, não a idade do relógio.
A primeira menção escrita conhecida do Orloj de Olomouc é de 1519. Ao longo dos séculos, ele foi gótico, renascentista, barroco e recebeu grandes alterações no século XIX.
Depois dos danos de 1945, Karel Svolinský desenvolveu a nova decoração entre o fim dos anos 1940 e a década seguinte. O conjunto inaugurado em 1955 juntou a linguagem do realismo socialista ao interesse que o artista já tinha pelo folclore, pelos trajes e pelos trabalhos tradicionais da região de Haná.
É por isso que a denominação “relógio comunista” pode confundir. Ao mesmo tempo que a ideologia do período está presente, ela não o define.
Dois relógios que não ficaram parados no tempo
Em 1945, os dois relógios foram atingidos pela guerra. O que aconteceu depois ajuda a explicar por que hoje eles parecem pertencer a mundos tão diferentes.
Em Praga, o incêndio da Prefeitura da Cidade Velha danificou gravemente o Orloj e destruiu os apóstolos que existiam naquele momento. Na reconstrução, concluída em 1948, novas figuras foram criadas por Vojtěch Sucharda e o relógio recuperou a aparência histórica pela qual já era reconhecido.
Em Olomouc, foi diferente. Os danos atingiram principalmente a decoração e o nicho. Apenas o mecanismo do fim do século XIX sobreviveu.
Porém, a escolha foi não voltar simplesmente ao que existia antes.
Na nova versão, inaugurada em 1955, santos e referências religiosas deram lugar a trabalhadores, profissões, atividades agrícolas e tradições de Haná. O relógio continuou antigo por dentro, mas ganhou uma nova maneira de representar a cidade na fachada.
Praga reconstruiu a continuidade. Olomouc deixou a ruptura aparecer.
Essa diferença não transforma um relógio em “medieval” e o outro em “comunista”. Faz algo mais interessante: mostra como duas cidades, diante de perdas provocadas pelo mesmo período histórico, escolheram maneiras distintas de colocar o passado de volta em movimento.
Como ver os dois relógios
Em Praga, os apóstolos aparecem a cada hora entre 8h e 23h. Em Olomouc, a apresentação acontece uma única vez por dia, ao meio-dia.
Em Praga, espere os apóstolos, mas não vá embora quando as janelas se fecharem. O mais extraordinário continua no mostrador.
Em Olomouc, faça o contrário, chegue alguns minutos antes. Primeiro olhe para os mosaicos, os trabalhos do ano e os personagens. Quando eles começarem a andar, você já vai saber quem está entrando em cena.
Praga olha para o céu. Olomouc coloca gente dentro do relógio.
Outras 3 dicas imperdíveis do que fazer em Olomouc
O relógio de Olomouc está instalado numa prefeitura com mais de seis séculos de história. E na mesma praça, Horní náměstí, está a enorme Coluna da Santíssima Trindade, monumento barroco inscrito como Patrimônio Mundial da UNESCO.
Pelo centro de Olomouc também aparecem fontes barrocas, igrejas, palácios e edifícios ligados à longa história universitária da cidade.
E aquilo que o relógio faz em poucos metros: juntar épocas que aparentemente não deveriam caber na mesma imagem, Olomouc repete em escala urbana.
E é por isso que eu digo: o relógio é um ótimo começo para explorar Olomouc. Mas, depois de conhecê-lo, continue andando. Aproveite a vibe descontraída e
1. Explore Olomouc além dos monumentos
Caminhe pelas ruas em torno de Horní e Dolní náměstí, atravesse o núcleo universitário e siga até a Catedral de São Venceslau.
É ali também que fica o Archdiocesan Museum, instalado no antigo complexo da catedral e da residência capitular.
O museu permite percorrer quase mil anos de arquitetura e arte no mesmo lugar, incluindo o antigo Palácio Episcopal românico.
Olomouc também fica particularmente interessante quando suas praças deixam de funcionar apenas como cenário.
A programação anual leva para as ruas da cidade, feiras, música e festivais. Em 2026, por exemplo, houve Carnaval, Festival do Queijo de Olomouc, festas da cidade, concertos ao ar livre e o Olomouc žije, que transformou o centro numa grande programação de música e artes de rua.
O calendário muda a cada ano, então vale conferi-lo antes da viagem.
Para comer, eu colocaria no radar o Long Story Short Eatery & Bakery. O restaurante e padaria artesanal do Long Story Short recebeu um Bib Gourmand no Guia Michelin de 2025.
E há um excelente desvio que combina muito com uma viagem pela Morávia: a cervejaria TVARG, em Velká Bystřice, nos arredores de Olomouc.
O lugar é, ao mesmo tempo, microcervejaria, restaurante e produtora de TVARGLE, queijo maturado nos mesmos porões de pedra onde a cerveja é feita.
Recomendo demais!
Conheça 11 curiosidades sobre a cerveja tcheca que eu aposto que você ainda não sabe.
2. Reserve um dia para Dlouhé stráně e Velké Losiny
Nas montanhas Jeseníky fica Dlouhé stráně, uma usina hidrelétrica reversível construída dentro da paisagem montanhosa.
O reservatório superior parece quase improvável no alto da serra. A água é bombeada para cima quando há sobra de energia e volta pelas turbinas quando a rede precisa dela.
Perto dali, Velké Losiny muda completamente de escala.
Sua fábrica de papel artesanal produz papel há mais de quatro séculos nas instalações históricas.
O museu mostra o processo tradicional, e em determinados períodos há oficinas em que o visitante pode fazer a própria folha.
E se a ideia for transformar essa região em uma extensão da viagem, sem correria de bate-volta, recomendo o Resort Sobotín, nas montanhas Jeseníky.
O lugar é incrível, e reúne hotéis, spa e diferentes opções de hospedagem.
3. Conheça um castelo que parece mais medieval do que realmente é
O Castelo de Bouzov tem torres, ponte levadiça, pátios, armaduras e aquela aparência que faz a gente conectá-lo imediatamente com a palavras “medieval”.
Mas não é bem assim.
O castelo surgiu entre o fim do século XIII e o começo do XIV, mas boa parte da silhueta romântica que vemos hoje é resultado de uma grande reconstrução posterior, ligada à Ordem Teutônica. Desde 1945 pertence ao Estado e hoje é Monumento Cultural Nacional.
Por dentro, os circuitos passam por aposentos do grão-mestre, Salão dos Cavaleiros, sala capitular, capela e armaria.
Os horários e os circuitos variam conforme a época do ano, então este é um daqueles lugares em que vale olhar o calendário oficial antes de sair de Olomouc.
Alessandra visitou Praga e Olomouc a convite do destino Czequia para participar do Meeting Point da República Tchéquia, evento que reuniu veículos de comunicação de países da América Latina e da Espanha.


















